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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Até que ponto a Biologia influencia na constituição dos Serial Killers?


Por Tamara Arianne Gallo da Silva

"Deve-se sentir pena daquele que tem gostos estranhos, mas nunca insultá-lo. Sua falha é a sua Natureza também. Ele não é mais responsável por ter vindo ao mundo com tendências contrárias do que nós somos por termos nascido de pernas bem arqueadas ou proporcionais ". Marquês de Sade (1740-1814), "Diálogo da Quinta" (de 1795).


Introdução

Se o que somos e o que fazemos tem origem no cérebro, sua estrutura e as ocorrências nele podem explicar nossa personalidade e todo o nosso catálogo de comportamentos. No entanto, o que acontece com as personalidades e os comportamentos desviantes? Se o desvio implica em comportamentos errados ou imprecisos, tem alguma coisa errada ou imprecisa nos cérebros daqueles que são desonestos? A possibilidade parece óbvia, e por isso mesmo delicada.

Certamente deve haver algo de errado com alguém que é extremamente violento, ou fere os indivíduos de uma maneira que a nossa sociedade não permite. Há poucas coisas mais repelentes à "natureza humana" e à moralidade do que o conceito do que é um Serial Killer. O que difere no cérebro desses indivíduos julgados pela nossa sociedade como predadores imperdoáveis e irredimíveis? A sociedade pode encontrar na razão biológica para tais atrocidades respostas mais confortáveis, do que as perspetivas de "bem e mal". Este trabalho irá catalogar e tentar organizar brevemente as atuais diferenças biológicas entre a mente de um Serial Killer e de uma pessoa considerada normal.


A Biologia pode nos tornar Assassinos?

Estudos recentes da ciência têm apontado locais quase imperceptíveis no cérebro, constituídos por sistemas intrincados que servem como uma espécie de bússola moral nos seres humanos (1). Alterações no cérebro têm sido consideradas responsáveis pelas mudanças no comportamentos de um indivíduo. No famoso exemplo de Phineas Gage, em um acidente de trabalho, uma barra de ferro perfurou o crânio de Gage. Gage era capaz de ficar em pé, de falar e de lembrar de alguns momentos que antecederam ao acidente. Sua inteligência estava intacta, mas logo ficou claro que este jovem uma vez considerado modelo de virtude, tinha sido mudado pelo incidente. Ele agora mentia e se comportava de maneira ruim com as pessoas ao seu redor. O médico de Gage, John Harlow, disse que Gage já não era mais Gage, e que o equilíbrio "entre sua faculdade intelectual e suas propensões animais" havia sido destruído. Pode este exemplo de lesão cerebral ser usado para explicar as "propensões animais" dos assassinos em série?

Os nossos conceitos de moralidade e emoção são difíceis de se interligarem com as noções obtidas pela ciência. A Neurobiologia procura encontrar lugares no cérebro responsáveis por esses conceitos. No entanto, os neurologistas não necessariamente concordam com a dicotomia entre a "paixão e a razão". A interdependência complexa das coisas que os seres humanos pensam e sentem são variáveis em cada indivíduo. E esta complexidade é comprovadamente resultante da organização cerebral, que também é complexa.

Ao detectarmos lugares no cérebro que são responsáveis por traços comportamentais, podemos compreender a existência de indivíduos com distúrbios neuropatológicos que podem apresentar um "comportamento racional-analítico" disfuncional, quando esses indivíduos não possuem as emoções sociais que orientam o comportamento humano normal. Podemos encontrar um indivíduo consciente de si e de seus atos, porém com danos na parte de seu cérebro responsável pelos sentimentos de angústia, desgosto, medo; e pela  ânsia por retribuição e aceitação social. Nesse caso, verifica-se que o córtex pré-frontal, uma área do cérebro envolvida no planejamento e julgamento a longo prazo, pode não funcionar corretamente em indivíduos psicopatas que voluntariamente se julgam "imorais". (5) (8) "Saber não significa necessariamente sentir-se; mesmo quando você percebe que o que você sabe deve fazer você se sentir de uma maneira específica, você não consegue fazê-lo" (3). Para exemplificar, Ted Bundy "sabia" o que ele estava fazendo quando brutalmente assassinou suas vítimas, mas ele pode não ter sido capaz de "sentir" as emoções morais que tal brutalidade provoca nos seres humanos normais.

Atualmente as pesquisas indicam que o assassino em série tem uma real dificuldade em processar, compreender e utilizar o conteúdo emocional de maneira geral. (6) As pesquisas são realizadas através de materiais específicos, que visam buscar respostas específicas; esses materiais variam desde fotos emocionalmente perturbadoras até palavras simplesmente emocionais. Notando que o hemisfério direito do cérebro é responsável pelo processamento do significado emocional das palavras, os pesquisadores especulam que "os psicopatas, que são insensíveis, emocionalmente superficiais e não sentem empatia dependem menos e utilizam menos do que os não psicopatas das estratégias de decodificação realizadas pela base desse hemisfério direito. " Os pesquisadores teorizam que os psicopatas podem contar mais com o hemisfério esquerdo, que "utiliza uma estratégia mais verbal-analítica". Esses dados obtidos indicam diferenças organizacionais fundamentais nos processos cerebrais de psicopatas e assassinos em série. (8)

Distúrbios neurobiológicos são assustadoramente comuns entre os criminosos. Em um estudo, 15 presos no corredor da morte foram escolhidos para serem examimados. Em cada detento, os investigadores encontraram evidência de traumatismo craniano grave e comprometimento neurológico. (2) Em muitos estudos de casos, os infratores foram encontrados para ter tido uma história de traumatismo craniano e anormalidade na Tomografia Computadorizada(TC),  nos Scans do Eletroencefalograma (EEG) e  nos Testes Neuropsicológicos. (4) Alguns dos assassinos sexuais seriais mais conhecidos tiveram os mesmos distúrbios e lesões. John Gacy tinha uma espécie de epilepsia psicomotora quando era criança. Arthur Shawcross, além de seu transtorno psiquiátrico, teve convulsões psicomotoras relacionadas com danos no lobo temporal. (2) Williams (1969) relata que os presos habitualmente agressivos (como serial killers e psicopatas) têm uma maior incidência de anormalidade no EEG (57%) do que os outros prisioneiros que haviam cometido um único crime maior (12%). A anormalidade no EEG estava localizada no lobo temporal - uma área associada com a personalidade, emoção e comportamento. (4)

As Teorias Psicobiológicas formuladas são muitas vezes reforçadas por resultados semelhantes obtidos em pesquisas com seres humanos e animais. Os modelos de comportamento de assassinos em série podem ser comparados ao fenômeno gravetos em pesquisa animal. Verificou-se que a estimulação elétrica intermitente do cérebro tem o efeito de alterar a excitabilidade do cérebro para o ponto em que a estimulação repetida produz convulsões. Ao longo de um período de tempo, o cérebro torna-se cada vez mais sensível a esta estimulação, até o ponto em que as convulsões iniciam espontaneamente. Nos seres humanos, este modelo tem sido utilizado para explicar a escalada dos transtornos de humor ao longo do tempo, particularmente na desordem maníaco-depressiva. (2) Isto significa que estressores repetidos podem induzir a uma depressão menor inicial em pessoas vulneráveis. Essa depressão e vulnerabilidade fazem com que a psicose maníaco-depressiva evolua com o tempo. Esta teoria parece ser capaz de explicar o padrão crescente de assassinatos, o alívio que alguns assassinos sentem após o assassinato, a intensificação do ciclo, e os sentimentos fora de controle. Pode ser que alguns assassinos em série possuam um aspecto não reconhecido, aberrante, ou atípico do transtorno de humor. Um perito em psiquiatria forense que examinou Ted Bundy, fez o diagnóstico de psicose maníaco-depressivo e atribuiu seus assassinatos a sua "raiva maníaca incontrolável." (2)

A idéia de condicionamento clássico é familiar à Psicologia. Pode ser possível para um cérebro a condição clássica de atribuir sentimentos positivos aos atos, comportamentos ou situações que as pessoas "normais" consideram aversivos. (4) Uma teoria é de que o cérebro do psicopata é organizado de maneira diferente como resultado de uma socialização imperfeita nos primeiros anos -, decorrentes de déficits herdados ou a partir de um ambiente familiar patológico (ou ambos). Isto poderia causar diferenças na capacidade de atribuir sentimentos positivos na mente de um indivíduo que tenha sido submetido a abusos de maneira geral. (7) A base anatômica para um mecanismo de condicionamento clássico no cérebro destes indivíduos alterados poderiam ser a proximidade e a interligação das estruturas límbicas ligada com a alimentação e agressão (a amígdala), com estruturas de controle das funções sexuais (o hipocampo e septo). (4)

Estruturas como tálamo e hipotálamo, também têm um papel direto no comportamento agressivo, bem como um papel na associação de emoções positivas ou negativas com os estímulos de entrada. Anormalidades no tálamo poderiam explicar a incapacidade de um serial killer de manter relações pessoais ou exibir empatia por suas vítimas (Sears, 1991). Além disso, o tálamo tem sido associado à ativação patológica do comportamento medroso e combativo (experiências aversivas), juntamente com funções orais e sexuais (experiências agradáveis). Quando uma área é estimulada, a excitação pode se estender a outras áreas, produzindo sentimentos de prazer associados com atos violentos. (4) Talvez na mente do assassino em série, esses comportamentos sejam"premiados" pelo próprio cérebro, justamente por serem comportamentos alterados. Se for assim que funciona, quer dizer que o próprio cérebro atribui respostas positivas para ações negativas. Isso poderia lentamente transformar qualquer um de nós em um serial killer a medida que conseguirmos alcançar o prazer por meio de atos denunciados pela sociedade?

Outro dado interessante mostra que os psicopatas têm um limite maior para o medo, e são menos propensos a responder ao medo pela indução estímulos. Parece que as respostas fisiológicas que várias pessoas apresentam aos estímulos de medo não ocorrem com tanta frequência em psicopatas. A Freqüência cardíaca e a temperatura da pele dos psicopata são baixas, e suas "reações de susto ou de surpresa" são substancialmente menores do que a maioria das pessoas nas mesmas situações. Isto significa que os psicopatas precisam de mais estímulos para sentir emoções ou viver experiências intensas do que eu e você. O sistema nervoso autônomo de pessoas intensamente violentas é intensamente lento. (5) Este é um fenômeno comumente documentado no Transtorno da Personalidade Antissocial. Se uma pessoa sente prazer apenas em eventos extremos, talvez a esse indivíduo seja negado os prazeres da vida sentidos por  todos.

Da mesma maneira, o hipotálamo desempenha um papel na ativação do sistema reticular, que pode bloquear a atividade ou agir como estimulante ao atingir o córtex cerebral, que está relacionado a capacidade de julgamento. Estudos sugerem tal mecanismo pode ser o responsável pela hipoativação crônica no psicopata, o levando a um comportamento antissocial, numa tentativa de aumentar os níveis de excitação corticais (Bartol, 1980). Isso parece ser capaz de explicar o fato do serial killer ser orientado pela emoção que é responsável pelo aumento da freqüência de seus assassinatos. (4)

Existem várias outras teorias relacionadas com o cérebro que podem explicar algumas das características do comportamento complexo de um Serial Killer. O Ácido 5-hidroxi-indol- acético (5-HIAA), um bi-produto metabólico do neurotransmissor serotonina pode ter uma concentração anormalmente baixa no fluido cerebrospinal de homens persistentemente agressivos e antissociais. Se um neurotransmissor é capaz  de desempenhar um papel na agressão, talvez ele possa ser a chave para a compreensão da violência de um Serial Killer. (4) O cérebro tem muitas maneiras de regular comportamentos agressivos. É muito cedo para dizer quais aspectos, funções, produtos químicos ou partes do cérebro podem causar a diferença entre um homem que se mete em brigas em bares e um outro que assassinou várias pessoas.

Fatores hormonais também podem desempenhar um papel. Os androgênios, como outros hormônios, pode ter tanto uma influência direta sobre os mecanismos fisiológicos que regem o comportamento, como podem organizar o cérebro humano em desenvolvimento para tornar determinadas respostas comportamentais mais prováveis. As fêmeas expostas ao excesso de atividade androgênica apresentam características masculinas, como o aumento da agressão. (4) Todavia, esses efeitos podem ser oriundos ao tratamento diferenciado durante a criação. No entanto, a exposição pré-natal aos andrógenos também podem desencadear os mesmos comportamentos. Todas estas diferenças na composição química podem causar essas diferenças no cérebro do assassino em série. Por exemplo, os efeitos dos androgênios sobre a organização do cérebro pode afetar a tendência  que os psicopatas tem de usar o hemisfério esquerdo do cérebro. Usando estudos de caso, é impossível dizer o que vem em primeiro lugar, se são as tendências psicopáticas ou as anomalias no cérebro.

O Serial Killer Carl se Panzram escreveu: "Toda a minha família é como os outros seres humanos comuns. Eles são pessoas honestas e que trabalham duro. Todos, exceto eu que tenho sido um homem- animal desde que eu nasci. Quando eu era muito jovem.... com 5 ou 6 anos de idade eu já era um ladrão e um mentiroso acima de média. Quanto mais velho eu fico, mais fraco eu fico". O Assassino de crianças, o alemão Peter Kurten havia afogado dois companheiros com apenas nove anos de idade. (5) Os criminosos psicopatas são realmente diferentes desde o nascimento?


Conclusão

Algumas das diferenças entre os cérebros destes 'monstros' são claramente descritas acima. No entanto, observar essas diferenças biológicas existentes no cérebro imoral e criminoso  nos faz perceber o quão difícil é a punição e o tratamento destes indivíduos. Foi dito que talvez a "responsabilização" dos assassinos em série pode ser determinada por Scans do cérebro, uma vez que essas diferenças fossem catalogadas. Se estas diferenças forem detectáveis, talvez possamos saber quem é um assassino em série ou não. No entanto, e se os resultados indicarem que o Serial Killer nasceu assim, ao invés de ter treinando voluntariamente para se aproveitar dos 'sentimentos' que os seus crimes provocam?

A sociedade tem o direito de impor a pena de morte sobre aqueles que são biologicamente mal constituídos? A Biologia diz que essas pessoas sofrem de algo similar a um defeito de nascença, como se algo estranho tivesse acontecido e afetado seus cérebros. A "defesa de insanidade mental" afirma claramente que não podemos punir uma pessoa que não entende o que fez como sendo algo errado; pois como expusemos anteriormente, as alterações ou anomalias no cérebro indicam que os Serial Killers não entendem o mundo como eu e você. Mas e aqueles que apesar de não entenderem o mundo da mesma forma que  nós, sabem que seus atos são prejudiciais e sentem prazer só de pensar no mal que irá causar? 

Poderiam os Serial Killers algum dia simplesmente se tornarem indivíduos que buscam atividades que lhes permitam desfrutar e ter prazer na vida, como eu e você? Será que talvez um dia eles aprendam que para a "busca da felicidade", eles devem negociar o que a sociedade lhes impõe como "moralidade" mesmo que eles não sejam capazes de entender esse conceito?
É uma questão complexa e que apesar dos avanços ainda não está terminada, pois a medida que a ciência começa a desvendar a personalidade, a responsabilidade moral é desvendada na mesma proporção. 


Fontes

(1) Wallis, C.; Dell, K. What Makes Teens Tick; A flood of hormones, sure. But also a host of structural changes in the brain. Can those explain the behaviors that make adolescence so exciting and so exasperating?

(2) Encyclopedia Of mental Disorders. Sexual Sadism. Disponível em :http://www.minddisorders.com/Py-Z/Sexual-sadism.html Acesso em 08/12/2014. (Autor não especificado)

(3) Chauí, M. A Filosofia Moral. In: Unidade 8 - O mundo da prática. Convite à Filosofia. 3º Edição. Cidade: São Paulo. Editora Ática, 2000. p 401 - 415.

4) Renato M.E. Sabbatini. O Cérebro do Psicopata. Disponível em: http://www.cerebromente.org.br/n07/doencas/index_p.html Acesso em 02/12/2014

5) Scott, L, S. What Makes Serial Killers Tick? Disponível em: http://www.crimelibrary.com/serial_killers/notorious/tick/victims_1.html  Acesso em 28/11/2014

6) BBC. Are we born good or evil? Disponível em: http://www.bbc.com/future/story/20140122-are-you-good-or-evil Acesso em 15/11/2014- Transcrição de Trechos do Documentário.

7) Frontiers. "Neurological basis for lack of empathy in psychopaths." ScienceDaily. ScienceDaily, 24 September 2013. Disponível em: http://www.sciencedaily.com/releases/2013/09/130924174331.htm?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=neurological-basis-for-lack-of-empathy-in-psychopaths Acessado em: 12/12/2014

8) Moskowitz, C. Criminal Minds Are Different From Yours, Brain Scans Reveal. Disponível em: http://www.livescience.com/13083-criminals-brain-neuroscience-ethics.html Acessado em: 15/12/2014.




















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