Essa comunidade é o reduto das pessoas interessadas nessas duas especialidades da ciência criminal, que até então não tinham como discutir, trocar informações e novidades sobre a criminologia e psicologia forense.

Postagem em destaque

Serial Killers - Parte XI - Mitos Sobre Serial Killers Parte 6

#6: ELES SÃO TODOS BRANCOS Contrariando o mito popular, nem todos os serial killers são brancos. Serial killers existem em todos os gr...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Serial Killers - Parte Final: Serial Killers na cultura POP


"Eles não têm um nome para o que ele é", diz Clarice enquanto ela tenta desvendar
o mistério sobre o Psiquiatra Hannibal Lecter.

Essa frase foi retirada de uma cena de um dos filmes de maior sucesso na história do cinema - "O Silêncio dos Inocentes", onde a jovem agente do FBI Clarice Starling (Foster) busca ajuda de um serial killer detido, o doutor Hannibal Lecter (Hopkins) para chegar a outro assassino que está na ativa, Buffalo Bill (Ted Levine). Não é tão simples quanto parece, pois Lecter se mostra extremamente inteligente e calculista; e faz Clarice se questionar a respeito de tudo o que aprendeu no FBI sobre a Psicopatologia presente no caso de Lecter.



Histórias que envolvem personagens malvados, agressivos e extremamente egoístas possuem uma estrutura narrativa poderosa e que prendem o telespectador de maneira intensa. Essa narrativa combinada com imagens, diálogos, efeitos sonoros e música em um filme imitam o nosso fluxo de consciência, mexendo com os nossos conflitos e os nossos medos.

Atualmente é comum entrarmos em uma banca de jornal e encontrarmos inúmeras edições de revistas dedicadas ao assunto; quando ligamos a TV percebemos a grande variedade de programas jornalísticos, filmes e séries cujo enredo envolve um assassino cruel. No entanto, isso nos deixa com a dúvida do que é realmente a psicopatia e se esse tema é retratado com precisão através desses filmes e personagens. Qual é o segredo de tanto sucesso? Porque filmes que abordam esses temas causam tanto fascínio na população?

Grande parte do conhecimento do público sobre os Serial killers é guiado pela desinformação. A maioria das informações transmitidas pela mídia é de cunho sensacionalista, pois a menos que a mídia trabalhe em conjunto com o sistema de justiça criminal, as informações sobre o crime e sobre o criminoso podem ser distorcidas ao serem mostradas para o público. O principal papel dos meios de comunicação é informar, porém nesses casos o objetivo da mídia não é alertar a população ou contribuir para a prisão dos responsáveis, e sim aumentar a audiência e gerar lucro. Esse movimento (assassinato - mídia sensacionalista - público em pânico) contribui para a construção social errônea do que é o Serial Killer, pois permite que o público utilize essas informações distorcidas para interpretar as questões acerca da criminalidade e para abrandar os próprios sentimentos de ansiedade e medo sobre o assunto.

 Mas o que é um Serial Killer? 

Para que um criminoso seja classificado como serial killer, este deve preencher alguns requisitos, como: assassinato de duas ou mais vítimas em situações isoladas, apresentar razões de cunho psicológico para seus crimes, modus operandi presente no crime, presença de uma “assinatura” deixada pelo assassino e, em muitos casos, envolvimento com ações sádicas ou sexuais.

Normalmente, os serial killers apresentam um comportamento aparentemente normal, ou seja, trabalham, desempenham rotinas na sociedade e convivem com outros grupos sociais.

Em Thrillers, em filmes de detetive e de ficção científica, em dramas históricos, e até mesmo em filmes de aventura, encontramos personagens que podemos dizer que possuem as características de um Psicopata. Pesquisando na Internet podemos achar inúmeras listas de filmes que falam sobre Psicopatas e Serial Killers. Esses personagens geralmente atuam como o vilão, introduzindo o conflito ou perturbação na história que impulsiona a ação do filme.

Podemos citar alguns filmes dos últimos 70 anos que retratam a psicopatia ou o comportamento antissocial. Um dos primeiros filmes a explorar esse tema foi O Gabinete do Dr. Caligari, onde vemos o sonâmbulo Cesare como a figura de um assassino serial.
Capa do Filme O Gabinete do Dr. Caligari
Alguns assassinos como o Zodíaco, Wayne Williams e Ted Bundy geraram pânico na sociedade em geral por volta dos anos 1960 e 1970. O Assassino do Zodíaco matou pessoas de maneira aleatória na área de São Francisco no final dos anos 1960 e 1970. Ao cometer os assassinatos, o Zodíaco insultava a polícia enviando cartas ameaçadoras e declarações codificadas aos meios de comunicação. O Zodíaco nunca foi capturado e a história se tornou uma inspiração para os filmes de Dirty Harry. Wayne Williams, um jovem Afro americano, matou mais de 20 crianças negras em Atlanta, Georgia.

Ted Bundy era um homem atraente e encantador, não exatamente o que o público tem em mente do que é um serial killer típico. Bundy matou e estuprou jovens universitárias entre 1974 e 1978. Bundy era tão inteligente que ingressou em uma universidade e concluiu sua licenciatura em Psicologia, e depois de se formar conseguiu um trabalho na campanha presidencial de Nelson Rockefller. Bundy foi capaz de manter-se sob uma encantadora fachada de normalidade, enquanto que ao mesmo tempo cometia crimes hediondos. Bundy tornou-se uma espécie de celebridade em sua época, e ainda atrai grande interesse. Muitos criminosos ao estilo de Bundy são vistos como psicopatas, e de fato eles parecem satisfazer muitos critérios de psicopatia. Eles são altamente enganadores, manipuladores e carecem completamente de verdadeira empatia.


Outro caso da vida real que teve uma ampla influência no cinema americano foi o de Ed Gein, preso em 1957. Por causa da atenção que recebeu nos Estados Unidos, o retrato do psicopata no cinema foi concentrado em um gênero de filme bem específico: o horror. As façanhas e detalhes do caso Ed Gein, incluindo roubo de túmulos, o canibalismo e necrofilia, tornaram-se grandes modelos para as representações das características que poderiam ser consideradas típicas de um comportamento de um psicopata (ele na verdade era psicótico).  Ed Gein além de perder o pai muito cedo, tinha uma mãe que o explorava no trabalho e proibia o contato dele com mulheres. Depois que ela morreu Ed a embalsamou e a colocou no quarto. Confessou que às vezes se masturbava em cima dela. Logo depois ele começou a matar mulheres que pareciam fisicamente com sua mãe, e tirava a pele dessas mulheres para fazer roupas e objetos. 

O vilão Norman Bates, é retratado como um homem aparentemente comum que mata uma mulher enquanto está sob o controle de uma personalidade alternativa que toma a forma de sua mãe dominadora, que ele mesmo assassinou. Tanto o romance quanto a adaptação para o filme de Alfred Hitchcock de 1960, resultaram da influência do retrato de mídia acerca dos psicopatas. Nem o livro e nem o filme discorrem sobre o termo 'psicopata', embora seja comumente tomado como referência. No final do filme, um psiquiatra diz   que Bates possui dupla personalidade. Na realidade o personagem é acometido por uma Psicose, que é um diagnóstico totalmente diferente da Psicopatia, e que envolve delírios e alucinações.
Filme da Década de 60
Seriado baseado na história de Psicose, onde mostra o desenrolar da Doença mental de Norman Bates.
O início da década de 1990 continuou a dar ênfase aos problemas psicológicos como causadores do crime. Jonathan Demme criou em 1990, um dos melhores filmes do gênero, O Silêncio dos Inocentes. O longa ganhou os 5 maiores prêmios do Oscar, um caso raríssimo. O filme teve uma continuação em 2001 com Hannibal, que foi bem nas bilheterias, mas nem tanto nas críticas. O filme abusa um pouco do gênero e torna-se bem mais sangrento que o primeiro.

De 1994, o filme “Assassinos por Natureza” de Oliver Stone possui uma linguagem ousada e se utiliza de diversas técnicas, incluindo desenhos animados para tentar explicar como funciona a cabeça de um Serial Killer. Anos depois, Quentin Tarantino usaria quase os mesmos recursos em Pulp Fiction – Tempos de Violência. No longa de Oliver Stone, Mickey (Woody Harrelson) e Mallory (Juliette Lewis) matam aproximadamente 50 pessoas. Em 1995, o filme “S7ven - Os Sete Crimes Capitais” conta a história de um Serial Killer que mata as pessoas de acordo com os sete pecados capitais, sempre deixando algumas pistas a fim de testar a inteligência dos investigadores.


Desde o início de 2000, a representação dos serial killers ficcionais mudou. Na verdade, eles tornaram-se mais humanos e vulneráveis, apresentando verdadeiros pontos fracos. Christian Bale esteve no papel de um executivo serial killer em Psicopata Americano. O filme foi aclamado por muitos e negligenciado por outros. O filme é inspirado no romance American Psycho que conta a história de Patrick Bateman, um serial killer yuppie que trabalha em Wall Street na década de 1980. Alguns comentários, inclusive em revistas científicas sugeriram que o personagem Bateman seria um psicopata. No entanto, Bateman também exibia sinais de psicose, como alucinações.


Atualmente muitos filmes e séries de TV estão surgindo como um reflexo da ânsia da sociedade por respostas acerca da psicopatia e da criminalidade; além disso, parece satisfazer as preocupações do público com a segurança e com a justiça, ainda que através da ficção. Entre essas inúmeras séries podemos citar Criminal Minds, onde uma equipe de agentes do FBI chamados de Profilers, analisam os casos de assassinatos e traçam o perfis dos assassinos com o objetivo de capturá- los. Apesar da grande carga dramática, os produtores da série consultam agentes do FBI da vida real para escreverem os episódios.
Podemos citar também The Perfect Husband (2004) que é baseado em um caso real, Dexter, The Fall, The Following, Stalker, The Killing, Those Who Kill, entre outros.


No entanto, os personagens manipuladores e insensíveis retratados nos filmes muitas vezes não apresentam outras características próprias do serial killer consideradas importantes. Eles descobriram que muitas vezes é dada ao "Psicopata de Hollywood" uma sequencia de traços - alta inteligência, uma preferência para a estimulação intelectual (música, artes plásticas), uma postura elegante e vaidosa, uma atitude de querer estar sempre no controle, além de habilidades excepcionais ao matar as pessoas (muitas vezes com objetos domésticos comuns) - que não são característicos de psicopatas reais, especialmente se esses traços forem combinados. Os personagens típicos desses filmes demonstram ser gravemente narcisistas, e possuem uma sensibilidade apurada para saber o tipo de impressão que querem causar nos outros. 

“Essas características são desconectadas da realidade e sofrem de uma ideação delirante,” descrevem Leistedt e Linkowski.

Tais personagens são retratados frequentemente de forma exagerada e normalmente no papel de um vilão ou anti-herói, em que as características gerais de um psicopata são úteis para facilitar o conflito e o perigo. Muitos personagens de grandes filmes podem ter sido criados para se enquadrarem na categoria de um psicopata no momento da produção do filme ou da liberação, mas não necessariamente nos anos subsequentes.  É claro que existem subtipos desses assassinos psicopatas, mas a mídia de massa enfeita estes indivíduos e os colocam nos papéis do herói de guerra, de policial psicopata, de bandidos dinâmicos, e anti-heróis.

O herói de guerra é glorificado como um indivíduo corajoso que possui um bom desempenho sob pressão, e que devido à falta de moralidade e do medo de matar, tem a capacidade de salvar os outros. A representação de anti-herói de um psicopata é composta por indivíduos que trabalham à margem da lei, a fim de proteger a sociedade. Estes tipos de personagens podem ser encontrados em filmes como V de Vingança, Batman: The Dark Knight Rises, Fight Club, entre outros.  Na série de TV de grande sucesso, Dexter, o protagonista (Dexter) é um serial killer que trabalha na polícia como perito em análise sanguínea, e aproveita-se disso para matar de uma forma meticulosa e sem deixar pistas; porém mata apenas criminosos que a Justiça não consegue deter, é retratado como um Psicopata Justiceiro e que luta para viver pacificamente em sociedade. Estas representações são altamente irrealistas; psicopatas não estão preocupados com o bem-estar dos outros e tal comportamento de proteger os outros seria apenas possível se trouxesse algum benefício para eles. Eles são egocêntricos, irresponsáveis e altamente impulsivos, o que resultaria em caos e mortes. Mais uma vez, escritores e cineastas parecem ignorar a natureza egocêntrica do psicopata.


The Bad Seed (1956) e Badlands de Terrence Malick (1973) são dois exemplos de filmes que retratam com veracidade esse Transtorno de Personalidade, através dos seus personagens protagonistas.

Hare explica que desde que o filme O Silêncio dos Inocentes (1991) saiu, repórteres repetidamente o consultam para saber se Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), o psiquiatra que cultivava uma propensão para o canibalismo, é ou não um Psicopata. Sua resposta foi:

"A representação de assassinos grotescos e sádicos como Lecter, deu ao público uma visão distorcida da Psicopatia. Na maioria dos casos, é o egocentrismo, o capricho, e a promessa de gratificação instantânea para as necessidades mais comuns, que motivam o psicopata a quebrar a lei; e nem sempre a satisfação sexual ou a busca bizarra pelo poder (Hare, 1993, p. 74)".

Hannibal Lecter, enquanto a personificação do mal, também é um clínico extremamente astuto, que pode diagnosticar conflitos psicológicos de Jodie Foster, identificar o seu perfume e avaliar seus sapatos e roupas com precisão. Ele também parece ser invulnerável. Mais uma vez, o Dr. Lecter acumula muitas características pessoais que geralmente não são encontradas na prática clínica diária.

Anthony Hopkins como Hannibal Lecter
“Entre os personagens serial killers recentes mais realistas e mais interessantes, está Anton Chigurh no filme Onde os Fracos não têm Vez, de 2007”. Ele parece ser afetivamente invulnerável e resistente a qualquer tipo de emoção ou humanidade.

"Eles podem imitar emoções. Intelectualmente, eles têm a capacidade de explicar o que é tristeza, mas eles não conseguem sentir tristeza ou ansiedade", revela Leistedt.


Ao compararmos o verídico caso de Richard Kuklinski [Serial Killer de New Jersey] com Chigurh podemos perceber que os dois possuem várias características em comum. No caso de Chigurh a descrição é extrema, mas poderíamos realmente quase falar em "um transtorno de personalidade antissocial”.

Outro exemplo importante de realidade é Henry (inspirado em Henry Lee Lucas) - (Henry-Portrait of a Serial Killer, 1991). Nesse filme, o principal tema interessante é o caos e a instabilidade na vida do serial killer, a falta de insight de Henry, uma poderosa falta de empatia, a pobreza emocional, e uma falha bem ilustrada em planejar os atos com antecedência. George Harvey é outro personagem diferente e interessante encontrado em The Lovely Bones, 2009. Harvey é mais «adaptado» do que Chigurh e Henry. Ele tem uma casa, é socialmente competente e parece “o homem que mora no outro lado da rua’”. Através do filme, ficamos sabendo que ele é de fato um parafílico organizado [predador sexualmente violento]. Aqui, o falso eu é bem ilustrado.


Esse nosso fascínio pelos Serial killers e psicopatas talvez represente uma identificação inconsciente pelo estilo de vida que esses indivíduos levam, pois através deles vivemos nossas fantasias de ter uma vida sem controles internos.

Como uma audiência, é importante sermos informados sobre os efeitos que a mídia tem sobre a nossa sociedade; os mitos são utilizados para controlar, e nesse caso podem moldar nossas percepções sobre crime e o sistema de justiça criminal. Mitos nos revelam que existem problemas que precisam ser solucionados.

As consequências negativas do mito podem incluir o medo, a percepção de fracasso quando o crime vence políticas de controle, e os estereótipos do criminoso dentro do sistema de justiça. 

“Existem características exibidas na ficção que são realistas”, os pesquisadores concluem, “mas são a minoria.” Esses personagens, que espelham alguns tipos de nossa sociedade, são muito importantes para o próprio cinema e arte em geral, e principalmente para as futuras gerações de psicólogos e psiquiatras forenses que podem utilizar todo esse material para fins didáticos. Alguns desses personagens fictícios ilustram vários aspectos da psiquiatria forense, tais como os transtornos de personalidade, a parafilia, o retrato do sistema legal, os comportamentos dos advogados, os procedimentos do tribunal e etc. Por conta disso, esses filmes podem ser ricas fontes de aulas e estudos sobre casos clínicos, e podem promover discussões entre estudantes e membros de faculdade.

Apesar de sermos capazes de descrever os serial killers razoavelmente bem, nós não os entendemos. Através dos filmes podemos conhecer pessoas e experimentar situações que provavelmente nunca teríamos a oportunidade experimentar na vida real. Ainda bem!

Não importa o subtipo, uma coisa é clara: Serial Killers e Psicopatas são as pessoas que encontramos em nossos pesadelos. E, por vezes, na sala de reuniões. Estamos fascinados e repelidos por eles, então não é nenhuma surpresa que eles sejam o assunto de muitos de nossos filmes favoritos.

BIBLIOGRAFIA

Hare, Robert. (1993). Without Conscience: The Disturbing World of the Psychopaths Among Us. New York: The Guildford Press.

Hesse, M. (2009). Portrayal of psychopathy in the movies. International Review of Psychiatry, 21(3), 207-212.

Levermore, M.A., & Salisbury, G.L. (2009). The Relationship between virtual and actual aggression: Youth exposure to violent media. The Forensic Examiner, 18(2), 32-42

Psychopathy and the Cinema: Fact or Fiction?- Samuel J. Leistedt M.D., Ph.D.* andPaul Linkowski M.D., Ph.D.Journal of Forensic Sciences. volume 59, Issue 1, pages 167–174, January 2014

Copley, Jennifer. (2008). The Glamorization of the Psychopath. Retrieved from http://jennifercopley.suite101.com/media-glamorization-of-the-psychopath-a63747.

CLECKLEY, H. M. The Mask of Sanity: An Attempt to Clarify Some Issues About the So-Called Psychopathic Personality. Fifth Edition. Augusta, Georgia: Emily S. Cleckley, 1988. 485 p.



Reações:

0 comentários:

Postar um comentário