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#6: ELES SÃO TODOS BRANCOS Contrariando o mito popular, nem todos os serial killers são brancos. Serial killers existem em todos os gr...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Caso da Semana 1: Os Crimes de Preto Amaral




Nome: José Augusto do Amaral
Apelido: Preto Amaral
Data de Nascimento: 1871
Data de Morte: 12 de julho de 1927, vítima de tuberculose


José Augusto do Amaral, nascido em 15 de agosto de 1871, solteiro, era natural de Conquista, Minas Gerais. Seus pais escravos africanos do Congo e de Moçambique, haviam sido comprados pelo Visconde de Ouro Preto. Quando estava com 17 anos se beneficiou da Lei Áurea da Princesa Isabel para ser alforriado. Logo depois, sem muita opção de trabalho, acabou por se alistar ao exército e serviu em diversas cidades brasileiras, e até na Guerra de Canudos esteve. 

Amaral foi voluntário da Força Pública do Estado de São Paulo, mas desertou. Era reincidente nesse tipo de atitude, que tomou em todos os corpos militares onde serviu: Brigada Policial do Rio Grande do Sul, Grupo de Artilharia Pesada em Bagé, Regimento de Infantaria de Porto Alegre, 13º Regimento de Cavalaria do Rio de Janeiro. Também se alistou na marinha, mas abandonou o compromisso logo em seguida.Em seu registro policial constam várias identificações para fins militares, três prisões por vadiagem em São Paulo (1920 e 1921), por vagabundagem em Bauru e Santos (1922) e, nesse mesmo ano por furto em São Paulo.

Nessa época, pós-escravatura no Brasil, era comum que negros fossem presos por esse motivo, pois muitos não conseguiam se empregar oficialmente e viviam de pequenos e eventuais trabalhos. Dessa forma, “Preto Amaral” constava como pessoa de maus antecedentes pela prática do que se denominava contravenção.
Depois de rodar o Brasil como voluntário da Pátria, no ano de 1926, Amaral já estava com 55 anos, tinha uma vida de andarilho e vivia de sub-empregos (bicos). Nessa época ele cometeu o seu suposto primeiro crime. Tinha tudo para morrer no anonimato até que, em 1927, foi preso, acusado de 3 homicídios. Confessou todos. Segundo seu depoimento, ele seduzia, depois asfixiava, para então estuprar o cadáver das vítimas – todos homens. A imprensa delirou; os jornais traziam manchetes sobre o “monstro negro”, o “diabo preto”, o “estrangulador de crianças”.

Os Crimes

- 13 de fevereiro de 1926

O menino “Rocco”, pequeno engraxate de 9 anos, trabalhava nas imediações da praça da Concórdia, próximo ao Teatro Colombo, no Brás. Cansado, estava pronto para ir embora. A garoa fina que caia espantava os fregueses naquela tarde cinzenta de São Paulo. As poucas pessoas que passavam pela rua estavam apressadas, tentando escapar da chuva.
Um homem alto, negro, aproximou-se de “Rocco”, pedindo que o ajudasse a carregar uma caixa com roupas, serviço pelo qual ele pagaria 4$000 (quatro mil réis). O menino, excitado com a oportunidade de ganhar um dinheiro extra, aceitou depressa. Seguiu-o da Avenida Celso Garcia até a ponte sobre o rio Tamanduateí, próximo à estação da Cantareira. 

Ao entrarem pela rua João Theodoro, “Rocco” sentiu um frio no estômago ao ver-se desprotegido pela pouca luz... A rua estava sem iluminação. Antes que pudesse ficar com medo e sem nenhum aviso, o homem atacou o menino diretamente no pescoço, tentando estrangulá-lo. O garoto lutou bravamente com todas suas forças, mas, sem conseguir respirar, desmaiou. Julgando-o morto, o estranho arrastou-o para debaixo da ponte, rasgou suas roupas e preparou-se para violentá-lo, quando num golpe de sorte, um carro aproximou-se e estacionou. Receoso de ser flagrado, o estranho largou “Rocco” e fugiu. O menino acordou um tempo depois, gemendo sem parar. Com muito esforço, machucado e enlameado, chegou até a rua. Duas moças que passavam por ali viram o menino e chamaram imediatamente um policial.

O motorista de táxi Basílio Patti estava saindo para trabalhar quando foi parado pelo grupo, ao atravessar a ponte da Rua João Theodoro. O policial pediu a Patti que levasse “Rocco” até a casa dos pais.
Aturdida com a história contada pelo filho, a família não deu queixa a polícia.
O criminoso tinha certeza de ter matado o menino. Depois de vagar a noite inteira pelo centro da cidade, voltou ao local no dia seguinte para dar vazão aos seus desejos sexuais. Surpreso, não achou cadáver algum...


- 05 de dezembro de 1926 – Antonio Sanchez, 27 anos.

Descansando sob as árvores da avenida Tiradentes, Antonio pensava em como faria para comprar a refeição naquele dia. Tinha vindo de Barra Bonita, interior de São Paulo, para trabalhar na capital. Antonio era franzino, doente e um pouco afeminado, aparentando ter menos idade do que seus 27 anos. Morava de aluguel na Lapa, mas não tinha como arcar com as despesas; estava com fome e não tinha conseguido ganhar dinheiro algum.
Abordado por um homem desconhecido, negro e alto, que disse se chamar Preto Amaral. Este lhe deu um cigarro e começaram a conversar sobre as agruras da vida. Amaral chamou o rapaz para almoçar com ele no Botequim do Cunha, que ficava em uma esquina da rua Teodoro Sampaio.

Depois de ver o rapaz almoçar com prazer, Amaral convidou-o para ir com ele até o Campo de Marte para ajudá-lo com um serviço e seria bem pago por isso.
Ao chegarem no Campo de Marte, em um local ermo, Amaral atacou Antonio que, após lutar bastante, foi estrangulado. Ao ver o moço desfalecido, abaixou-se para ouvir seu coração, violentou-o e fugiu em seguida.


- Véspera de Natal de 1926. José Felippe de Carvalho, 12 anos

Morador do Alto do Pari, às 16h brincava com seu estilingue caçando passarinhos pela redondeza. Mais tarde, pediu permissão à mãe para ir à missa de Natal da Igreja de Santo Antônio, que permitiu de pronto, feliz com a religiosidade do filho.
Chovia neste dia e, enquanto caminhava pelas proximidade do Canindé, José Felippe avistou um homem vendendo balões de gás. Este homem lhe deu um de presente, perguntou onde ele morava e reparou o estilingue que o menino trazia no bolso. Então, comentou que em uma mata perto dali havia um local com muitos passarinhos e que se ele quisesse acompanhá-lo, poderia mostrar o local.

O menino concordou, acompanhou Amaral até o Campo de Marte e, assim como fez com Sanchez, atacou José, cometeu homicídio e em seguida o violentou.
Mais tarde, desesperada, a mãe do menino saiu em busca de José; e como no caso de Sanchez, seu corpo não foi localizado. Só dias depois que José foi identificado pelas roupas, quando a mãe tomou conhecimento através dos jornais de que a polícia havia encontrado cadáveres de meninos sem identificação. Quando seu corpo foi localizado, a polícia se deu conta de que São Paulo tinha um assassino serial.

- 1º de janeiro de 1927 – Antônio Lemes, 15 anos.

Operário em uma fábrica de tecidos, Lemes saiu de casa pedindo à mãe que guardasse seu almoço e que chegaria mais tarde, pois, faria um serviço extra para uma senhora no bairro da Penha.

Enquanto brincava com outros menores nas proximidades do Mercado Central, Amaral avistou Lemes e convidou o garoto para almoçar com ele no Restaurante Meio-Dia. O rapaz aceitou, então, comeram, beberam vinho, e Amaral ofereceu-lhe 2 mil réis para que o acompanhasse até a Penha para fazer um serviço.
Seguiram para o largo do Mercado, tomaram o bonde " cara dura" para a Penha, no ponto final da linha, seguiram a pé pela estrada de São Miguel. De vez em quando, paravam em uns bares para Amaral tomar uns tragos.


bonde para operários celso garcia 1916
O bonde cara dura
Na altura do km 39, Amaral pegou um atalho da estrada recém-construída e, quando se afastaram o suficiente, enlaçou fortemente o braço esquerdo de Lemes, esganando-o com a mão direita. Sem resistência, Lemes desmaiou, então, Amaral enrolou um cinto de brim branco, de 85 cm de comprimento no pescoço de Lemes e apertou-o com o máximo de força. Depois, tirou-lhe a calça, rasgou-lhe a camisa e fez sexo com o cadáver. O corpo de Antonio foi encontrado no dia seguinte.



Descoberta

Tudo começou no entardecer do primeiro dia do ano de 1927 num subúrbio de São Paulo. No quilômetro 39 da estrada velha de São Miguel, perto de uma localidade chamada Villa Esperança. Foi lá que um passante avistou o cadáver de um garoto vestido somente com os restos de uma camisa, meio escondido no mato à beira do caminho. Correu em busca do posto de gasolina que ficava perto, a uns dois quilômetros da Penha, era o último que havia naquela velha estrada até São Miguel.

A comunicação demorou a chegar à Repartição Central da Polícia. Somente às 21h o comissário de serviço ficou sabendo da ocorrência, e pelas circunstâncias do comunicado achou mais conveniente notificar a Delegacia de Segurança Pessoal do Gabinete de Investigações. Assim é que às 23h chegaram as autoridades e o médico legista, Dr. Azambuja Neves ao local indicado. Um pequeno atalho da estrada de S. Miguel.

O menino era branco, muito claro, de olhos verdes e cabelos castanhos, aparentava ter treze anos e vestia apenas uma camisa xadrez curta e esfarrapada. No pescoço um cinto de brim estava fortemente amarrado. O médico constatou que fora estrangulado e que havia sinais de estupro. O crime ocorreu entre 15 e 16 horas. Devido à escuridão da lua nova e o tempo encoberto, não foram encontradas as outras vestes do menino naquela noite.
Albertos
Fotos publicadas no jornal Correio Paulistano do dia 04-01-1927
Já eram duas da madrugada quando voltaram à delegacia e o corpo foi levado para o necrotério da Repartição de Polícia, na Rua 25 de Março.

Logo no dia seguinte, o delegado Dr. Juvenal de Toledo Piza encarregou o comissário Ramiro Garcia das investigações. Nas imediações do local do crime foram encontrados os restos das roupas do menino e um boné de casimira xadrez que provavelmente também pertencia a ele.

Detiveram também um suspeito nos arredores do local do crime. Mas não conseguiram nenhuma informação sobre a identidade do menino.

Somente no dia 3 de janeiro apareceu um jovem aflito no Gabinete de Investigações na Rua dos Gusmões, procurando informações sobre seu irmão menor. O jovem, de dezessete anos era José Lemes de Vasconcelos que morava com a mãe e o irmão na Vila Maria. Tinham vindo a poucos meses de São José dos Campos, onde o pai estava em tratamento de saúde. Disse que seu irmão, Antonio, de 15 anos de idade, trabalhava na fábrica de tecidos de Sant’Anna e tinha saído de casa na manhã de sábado dia 1º às sete horas da manhã e não voltou. Usava paletó cáqui, calças de brim claro e estava descalço, com o pé doente. Usava boné.

Quando lhe mostraram o boné encontrado no local do crime, José Lemes o reconheceu como o do seu irmão. Mas quando o Dr. Juvenal Piza mostrou-lhe a fotografia do corpo encontrado, o jovem entrou a chorar descontroladamente e disse que não podia reconhecer e só sua mãe seria capaz de fazê-lo.

Devido ao estado emocional do rapaz, o delegado mandou que o levassem para casa e trouxessem sua mãe para reconhecer a vítima. Mas não foi encontrada, estava também tentando encontrar notícias do filho.


Fotos da perícia
Prisão e Confissão

No dia seguinte tudo seria esclarecido. O menino era mesmo Antonio Lemes, e o delegado Dr. Juvenal de Toledo Piza, já traçava um plano diferente para a investigação, pois os suspeitos que tinham arrolado se mostraram todos inocentes, pois tinham bons álibis. Mas nesse dia o acaso trouxe uma pista preciosa.

Às duas horas da tarde apareceu no Gabinete de Investigações uma pessoa pedindo para falar com o Dr. Juvenal Piza. Tratava-se de Roque de Cerqueira Leite, um eletricista viúvo que trabalhava numa casa de eletricidade na Praça da República, esquina com a Rua Ipiranga, onde também morava.

O delegado, que não tinha absolutamente nenhuma pista o recebeu. Disse que lendo as notícias sobre o crime da estrada de S. Miguel lembrou-se de um fato que na ocasião chamou-lhe a atenção. No dia de Ano Novo foi almoçar, entre 10 e 11 horas, no restaurante Meio-Dia da Rua Lourenço Gnecco, como era seu costume. Estava já sentado na mesinha do botequim, quando viu entrarem no estabelecimento um “preto reforçado”, de seus 50 anos e dois garotos, um dos quais trajando paletó cáqui, boné xadrez e com as características descritas nos jornais. O tal “preto reforçado” estava ficando conhecido por ali nos últimos dias, tal a frequência com que aparecia.

Um dos garotos sentou-se em mesa separada e tomou apenas um café com leite. O outro garoto, o de paletó cáqui, sentou-se à mesa com o negro e almoçaram conversando baixinho. Notou que além de pagar a conta, o negro ainda deu uma moeda de dois mil réis ao menino. À saída ouviu bem quando o preto despediu-se do que ficara separado dizendo que os esperassem, pois iriam à Penha e não demoravam.

Após ter lido sobre os acontecimentos nos jornais, Roque achou melhor relatar os fatos que talvez pudessem auxiliar nas investigações.

Foi tiro e queda. Os policiais acompanhados de Roque foram naquela mesma tarde à Rua 25 de Março e às 4 horas da tarde encontraram José Augusto do Amaral, que não ofereceu nenhuma resistência.

Recolhido à delegacia, foi interrogado pelo próprio delegado. Disse seu nome, idade, que havia nascido em Conquista, Minas Gerais, não sabia ler. Quando foi mencionado o crime, para espanto geral e com uma calma surpreendente confirmou que era ele próprio o autor do bárbaro crime e ia relatar não só este, mas outros que cometeu durante o mês de dezembro passado.

O próprio delegado custava a acreditar na veracidade do relato, considerando a naturalidade e a espontaneidade de Amaral, mas os fatos coincidiam com as narrativas de Roque Leite e mesmo do proprietário do restaurante Meio-Dia que também havia sido ouvido.

Mesmo assim, foi o delegado pessoalmente acompanhado do acusado ao local do crime para que ele identificasse o local exato e as circunstâncias. Amaral mostrou o local onde o crime havia sido praticado e para onde o cadáver havia sido removido.

Na volta à delegacia Amaral, com muita calma e serenidade continuou sua história.

Amaral havia sido preso várias vezes, por infrações menores, sendo a última em 1926 como desertor do Exército e indultado no dia 19 de novembro daquele ano.Quinze dias depois de sair da cadeia cometeu seu primeiro crime conhecido (Rocco).

Eram casos desconhecidos para a polícia e havia a necessidade de sindicâncias. Lá foram as autoridades ao campo de Marte, montando cavalos da Força Publica. Os cavalos eram necessários porque o rio Tietê serpenteava por ali e na época das chuvas de verão o local se transformava num pântano. Amaral ia guiando os investigadores até que passando um bambuzal encontraram uma ossada humana já quase completamente descarnada.

– É isso mesmo! É de um dos meninos… O outro deve estar mais adiante – falou Amaral com naturalidade.

– Aqui está! – exclamou.

No meio de uma folhagem enlameada jazia o corpo de um menino, com as pernas quase intactas e o corpo meio descarnado, provavelmente pela ação de cães famintos. Ali perto as calças enlameadas.

– Esse é o das gaiolas… Disse Amaral.

Ao final a história, que parecia meio fantasiosa, se confirmava verdadeira. As identidades foram sendo apuradas e ao final ficou tudo esclarecido.

Estando o delegado Juvenal Piza na estação da Luz dia cinco de janeiro às cinco horas da manhã, por motivos pessoais, foi abordado pelo carregador 259, Carmine Pezzino, que queria aproveitar a oportunidade para relatar um fato ocorrido com seu filho que deveria ter relação com o caso do “preto Amaral”.

Indo ao Gabinete de Investigações à tarde, com o menino, Rocco Pezzino, contou exatamente a história que Amaral já havia contado, porém ainda não havia sido publicada. Acrescentou que ao chegar à ponte, Amaral agarrou-o com um gesto brusco e apertou sua garganta. Desfaleceu e só foi despertar altas horas da noite, com sangue no rosto, sujo de terra e com a roupa rasgada. Um motorista e um policial o socorreram e o levaram para casa.

Ao avistar Amaral o menino o reconheceu e Amaral confirmou toda a história.

Estavam confirmadas todas as declarações de homicídio do suspeito, que dizia estar se sentindo melhor depois de sua confissão, mas ele não reconheceu ter abordado as vítimas vivas que o reconheceram na delegacia.
Segundo o “Preto Amaral”, suas noites estavam sendo atormentadas pelos fantasmas das pessoas para as quais fez algum mal. Esperava, com a admissão de seus crimes, viver em paz.


Psicologia

Confirmadas todas as declarações de homicídios de Amaral, que dizia sentir-se mais aliviado com a confissão, não reconheceu ter abordado as vítimas vivas que apareceram na delegacia. Dizia estar sendo atormentado pelos fantasmas das vítimas todas as noites.

No curso das investigações Amaral foi submetido a exames psiquiátricos e antropométricos tendo em vista as teorias “científicas” da Escola Positiva da época que, baseadas em César Lombroso e outros que afirmavam ser possível reconhecer “personalidades criminosas” através da análise de seus traços físicos.

Os médicos concluíram que se tratava de criminoso sádico, necrófilo e pederasta, sendo a criança seu objeto especial. Tinha habilidade de praticar seus crimes sem ser descoberto e, se não fosse sua confissão, dificilmente os restos mortais de suas vítimas seriam encontrados. 

No caso de preto Amaral, o tamanho “descomunal” e “desmedido” de seu pênis foi utilizado para identificar o estigma de sua degenerescência, sua anormalidade e sexualidade invertida. Questionado se costumava ter relações sexuais com “mulheres da vida”, respondeu que sim, porém nenhuma o aceitava novamente.  Ele atribuía esse fato a uma simpatia que fez quando adolescente. Aconselhado por amigos, teria marcado numa bananeira o tamanho desejado para seu pênis, com dois traços riscados a faca. Passado algum tempo, ao perceber que seu pênis se desenvolvia sem parar, correu até a árvore para modificar o traçado, mas já era tarde. Ela crescera demais e a distância entre os traços também. Desesperado, Amaral a derrubou com machadadas na tentativa de interromper o processo, mas, segundo ele, o “encanto” permaneceu.

Tinha as iniciais do nome da mãe, Francisca Claudia, tatuadas em seu braço esquerdo desde os 14 anos. Era analfabeto, inteligente, tocava instrumentos musicais de ouvido e tinha excelente memória. Era ferreiro e cozinheiro. Morou em Minas, Espírito Santo, Bahia, Ceará, Amazonas, Pará, Bolívia, Argentina, Uruguai, Rio Grande do Sul e, por fim, São Paulo.

Alegava ter alucinações depois do primeiro crime, nunca demonstrou arrependimento e não se sabe se matou nos outros locais que morou. Não refletia sobre suas ações; era impulsivo e não percebia nada de anormal em seu comportamento.

Seu diagnóstico médico-psiquiátrico, feito pelo ilustre psiquiatra Antonio Carlos Pacheco e Silva, catedrático de psiquiatria da Faculdade de Medicina de São Paulo, foi o seguinte:

“Trata-se, a nosso ver, de um criminoso sádico e necrófilo, cuja perversão se complica de pederose, em que a criança é o objeto especial e exclusivo da disposição patológica. Teria habilidade de praticar seus crimes sem ser descoberto.
Amaral enquadrou-se no grupo dos pervertidos sexuais caracterizados por aqueles que se encontram em permanente estado de hiperestesia sexual, que, sob a influência dessa excitação, que é contínua e mortificadora, são levados ao ato, mais ou menos automaticamente, sem terem a capacidade de refletir e julgar o ato impulsivo.
Os crimes dos sádicos-necrófilos são executados com relativa calma, com prudência, de emboscada, e o criminoso age como se estivesse praticando um ato normal.”

No dia 5 de janeiro houve oportunidade para que os repórteres entrevistassem Amaral, quando ele demonstrou sua personalidade atormentada dizendo:

– Sei que vou ser condenado a trinta anos de prisão e acho isso pouco para punir os meus crimes. Preferia que aqui houvesse a pena de morte. Queria eu próprio comandar os soldados para o meu fuzilamento, é isso que eu mereço.


Morte
CP 03-06-1927 recorte
Jornal Correio Paulistano de 03-06-1927
O “Preto Amaral”, “Monstro Negro”, “Papão de Crianças”, “Besta-Fera”, “Espigado” ou “Tucano”, como também foi chamado, foi ficando cada vez mais debilitado enquanto estava na cadeia. Emagreceu, tinha febre constante e dores reumáticas. Foi removido para a enfermaria da Cadeia Pública, onde faleceu de tuberculose pulmonar em 2 de julho de 1927, aos 55 anos, ainda sob prisão preventiva. Nunca chegou a ser julgado.

Observação: Em 20 de setembro de 2012 houve, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, um espetáculo teatral representando um Júri simulado do caso Preto Amaral no qual participaram um procurador da Justiça, um defensor público e dois criminalistas de primeira grandeza. Aventou-se a hipótese de que Preto Amaral tenha sido torturado para confessar seus crimes. 
É possível que tenha existido maus tratos, pois estes já eram recorrentes nas delegacias naquela época, porém pela leitura dos jornais e pelas entrevistas feitas com o próprio criminoso é difícil acreditar nessa hipótese.
No Júri simulado preto Amaral foi absolvido pela plateia presente por 257 votos a favor e 57 contra.


Fontes: 

Jornal Correio Paulistano, edições de 02/01/1927 a 08/01/1927.

Jornal O Estado de S. Paulo, edições de 02/01/1927 a 08/01/1927.

SOUZA CAMPOS, Paulo Fernando de, OS CRIMES DO “MONSTRO NEGRO”: REPRESENTAÇÕES DA DEGENERESCÊNCIA EM SÃO PAULO, trabalho apresentado no XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – João Pessoa, 2003.


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